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Primeiros passos.

Projeto Formando Campeões fez gol de letra na educação de crianças carentes do Lago Oeste: reduziu a repetência em 80%, levou a zero a evasão e aumentou notas de 68% dos 200 alunos.

Erika Klingl
Da Equipe do Correio

De cada 100 alunos matriculados em escolas públicas do Distrito Federal, 25 são reprovados ou abandonam a escola a cada ano. Apesar de não ser o pior índice do país, o dado mostra uma realidade para lá de preocupante. Especialistas, educadores e governantes procuram há anos uma solução para esse que é um dos maiores problemas do ensino brasileiro. A pouco mais de 30km do Ministério da Educação e do Palácio do Buriti, no entanto, um grupo de esportistas, assistentes sociais e professores têm uma boa sugestão do que pode ser a saída para manter meninos e meninas na sala de aula, aprendendo e apostando no futuro.


Crianças carentes do projeto avançam no desempenho escolar e esportivo. Sonham em ser campeões dentro e fora da sala de aula


Com apenas dois anos de vida, o projeto Formando Campeões, localizado no Núcleo Rural Lago Oeste, alcançou resultados surpreendentes com 200 crianças e jovens entre 7 e 17 anos. A repetência, que no DF gira em torno de 19,5%, foi de apenas 4% no ano passado — ou 79,48% — e a evasão, que está na casa de 5% entre os alunos de escolas públicas da capital, foi zero entre os integrantes do projeto. Além disso, 68% dos meninos e meninas melhoraram as notas.

É o caso de Pedro Spíndola, de 12 anos, da 5ª série do ensino fundamental, que antes de entrar no projeto passava as manhãs ajudando no trabalho de casa ou vendo televisão por horas seguidas. Agora, três vezes por semana, aprende caratê, informática, educação ambiental, horticultura e tem aulas de reforço escolar. Os números do boletim subiram de menos de cinco para nove na maioria das matérias. Ano passado ele não tirou nenhuma nota vermelha. “Tirei até 10”, comemora.

De acordo com a carateca tetracampeã mundial Carla Ribeiro, idealizadora da proposta, tão importante quanto o fortalecimento do processo de aprendizado é o trabalho com a auto-estima desses meninos. “O esporte ajuda a superar desafios. Aqui mostramos que eles são capazes e damos algumas ferramentas para ajudar a ultrapassar as barreiras da vida em um lugar pobre”, comenta.


Caratecas mirins Veronice (E), Luziene e Ayumi: lições de auto-estima e respeito


Sem essa ajuda, os irmãos Giovane, de 10 anos, e Davidson Alves Varjão, de 9 anos, estariam sofrendo ainda mais com a falta do pai, que morreu há um mês de ataque cardíaco. Os dois, ainda hoje, perguntam por ele sem entender exatamente o que ocorreu. Mas, aos poucos, com o futebol e a convivência constante com garotos da mesma idade, têm superado o trauma. “A gente vem para cá, joga bola, aprende e se diverte”, comenta Giovane. “A aula de informática é a minha preferida. Lá em casa a gente nunca tinha mexido no computador”, completa o caçula.



Os irmãos Giovani (E) e Davidson jogam futebol e querem ser campeões no estudo


Para funcionar, o projeto conta com a colaboração da Associação dos Produtores do Lago Oeste (Asproeste) e da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb). A aula de futebol é a preferida e a imensa maioria dos meninos sonha em ser um grande jogador de futebol. Os monitores porém criaram nos garotos a consciência de que o aprendizado escolar tem de ser constante e está sempre associado ao sucesso de uma carreira consolidada no futuro.


A expressão japonesa Dojukun é repetida pelos alunos em todas as aulas do professor Marcelo Alves Pimenta, de 29 anos. O caratê do Formando Campeões ensina defesa pessoal, mas engana-se quem acha que a aula se resume a isto. É uma lição de vida. O lema Dojukun resume a isso. “Caratê ajuda a criar o intuito do esforço, respeitar os outros, acima de tudo, conter o espírito agressor e, principalmente, ser fiel ao verdadeiro caminho da razão”, ensina Pimenta.

A busca desses ideais tem sido positiva para as irmãs Luziene e Veronice, de 9 e 10 anos, e a amiga Ayumy Aparecida, de 9 anos. As três fazem caratê há apenas três meses, mas já se sentem participantes de um mundo melhor. “Aprendi a respeitar e trabalhar em conjunto”, comenta Luziene. “Nossa mãe disse que a gente melhorou muito lá em casa”, completa Veronice. Para Ayumy, o maior ganho com o projeto foi na auto-estima. A garota tímida começa a conversar e a se entrosar com outras meninas e meninos pela primeira vez.



APOIO
Telefone para ajudar o Formando Campeões: 3478-1366/ 3443-5999 - E-mail: icr@formandocampeoes.org.br


"O esporte ajuda a superar desafios. Aqui mostramos que eles são capazes e damos algumas ferramentas para que eles ultrapassem as barreiras da vida em um lugar pobre" ( Carla Ribeiro, tetracampeã mundial de caratê)


"Caratê significa criar o intuito do esforço, respeitar os outros, acima de tudo, conter o espírito agressor e, principalmente, ser fiel ao verdadeiro caminho da razão." ( Marcelo Pimenta, professor de caratê)

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